Prática8 de fevereiro de 2026

Como Tirar Músicas de Ouvido Usando Harmonia Funcional

Aprenda a identificar acordes de músicas usando o conceito de funções harmônicas. Um método prático e eficiente para treinar seu ouvido musical.

Introdução

Conseguir tirar músicas sem depender de cifras ou tablaturas é uma habilidade muito útil e a boa notícia é que existem técnicas que podem ser treinadas para facilitar esse processo.

Nesse post vamos ver uma das técnicas que, se bem treinada, permite que você tire músicas de forma muito rápida. Estamos falando do conceito de harmonia funcional, que é uma ferramenta extremamente poderosa para entender a estrutura de sensações dentro de uma música.

A ideia principal dessa estratégia é, inicialmente, parar de tentar adivinhar o acorde que está sendo tocado. Em vez disso, vamos tentar entender a sensação que a música passa em determinado momento. Basicamente, teremos três sensações principais diferentes: repouso (função tônica), preparação (função subdominante), tensão (função dominante). Agora vamos ao passo a passo prático para encontrar os acordes de uma música usando o conceito de harmonia funcional, entendendo o papel de cada uma das funções harmônicas.

Passo 1: Encontrar o tom da música

Para identificar o tom de uma música, utilizamos a função tônica. Ouça a música com atenção e tente perceber o momento em que ela parece repousar, transmitindo uma sensação de estabilidade e resolução. Uma maneira prática de reconhecer esse ponto é se perguntar: a música poderia terminar aqui sem dar a impressão de que algo ficou incompleto? Quando a resposta for sim, você provavelmente encontrou a tônica e, consequentemente, o tom da música.

Depois de identificar esse ponto de repouso, o próximo passo é descobrir qual acorde está sendo tocado nesse momento. Para isso, preste atenção ao baixo da música, ou seja, à nota mais grave. Na maioria dos casos, essa nota corresponde à fundamental do acorde, oferecendo uma forte indicação do tom. Em seguida, experimente tocar esse acorde junto com a música e observe se ele se encaixa naturalmente, sem gerar tensão.

É importante lembrar que nem sempre o baixo representa a fundamental do acorde, pois o acorde pode estar em inversão. Por esse motivo, o teste auditivo é essencial para confirmar se o acorde está correto. Ainda assim, na grande maioria das situações, a nota do baixo será justamente o acorde que você está procurando.

Esse processo exige treino de ouvido. Inclua na sua rotina de estudos o hábito de identificar o tom das músicas a partir da sensação de repouso da função tônica. Separe algumas músicas para praticar e, com o tempo, essa percepção se tornará cada vez mais natural e rápida.

Dica: Use o Chordtect para visualizar o campo harmônico da tonalidade que você identificou e ter todos os acordes disponíveis à sua frente!

Passo 2: Descobrir a sequência das funções harmônicas

Agora que você já identificou o tom da música, fica muito mais fácil tirar os acordes. Neste momento, o objetivo é encontrar uma versão harmônica básica da música. Mais tarde, se quiser, você pode enriquecer essa base adicionando acordes da versão original, inversões, tétrades, acordes de preparação ou até criando sua própria releitura.

Para criar essa versão simplificada, é fundamental entender o movimento das funções harmônicas ao longo da música. Cada acorde dentro de um campo harmônico exerce uma das três funções principais: tônica, subdominante ou dominante. Essas funções seguem um fluxo natural que cria sensação de estabilidade, movimento e resolução.

Enquanto ouve a música, tente perceber quando a sensação harmônica muda. Você já sabe identificar a função tônica. As outras funções podem ser encontradas por tentativa e erro, testando apenas os acordes do campo harmônico do tom identificado — o que reduz muito a quantidade de possibilidades. Experimente usar um acorde com função dominante e observe se ele cria tensão pedindo resolução. Caso não funcione, teste um acorde de função subdominante e veja se ele se encaixa no trecho que está analisando.

Observe em quais momentos a música soa estável (função tônica), quando se afasta da estabilidade (função subdominante) e quando cria tensão pedindo retorno à tônica (função dominante). Sempre que essa sensação muda, houve uma troca de função harmônica.

Anote a sequência de funções ao longo da música, por exemplo:

Tônica → Subdominante → Dominante → Tônica

Essa sequência será a espinha dorsal harmônica da música. O objetivo aqui é anotar a função de cada acorde, e não os acordes em si. Isso permite tocar a música em qualquer tom, apenas seguindo a sequência de funções harmônicas.

Quer entender mais sobre como cada função funciona? Leia nosso artigo completo sobre Funções Harmônicas e descubra o papel de cada acorde dentro da progressão.

Passo 3: Identificando os acordes

Depois de mapear a sequência de funções, o próximo passo é escolher acordes do campo harmônico que cumpram cada função no tom identificado. Isso permite construir uma progressão simples, funcional e coerente, servindo como base para qualquer arranjo, acompanhamento ou rearmonização futura.

Comece identificando se o acorde é maior ou menor. Em seguida, selecione um acorde do campo harmônico do tom da música que corresponda à função harmônica do trecho que está analisando e teste se ele se encaixa. Repita esse processo até montar uma versão simplificada da música, usando apenas os acordes principais do campo harmônico, sem inversões, sétimas ou acordes de empréstimo.

O objetivo deste primeiro estágio é criar a harmonia mais simples possível, mas que ainda transmita a mesma sensação da música original. Assim, você terá uma base sólida, funcional e fácil de tocar, pronta para ser enriquecida ou adaptada posteriormente.

Essa versão simplificada já pode ser tocada e funcionará muito bem. Se perceber que a música está muito distante da versão original e quiser deixar mais próxima aí entram outros estudos como acordes de empréstimo modal, acordes de preparação, acordes invertidos e com sétima, etc. Tudo isso é um passo além para incrementar a base que você já fez, rearmonizando a música.

Extra: Rearmonização

Essa versão simplificada já pode ser tocada e funcionará muito bem como base da música. No entanto, se você perceber que a versão está muito distante da original ou quiser deixá-la mais rica e próxima do arranjo real, é possível ir além e fazer uma rearmonização.

Nessa etapa, você pode explorar elementos como:

Acordes de empréstimo modal: acordes que vêm de modos relacionados ao tom principal, usados para criar cores diferentes ou surpresas harmônicas.

Acordes de preparação: acordes que criam tensão antes de chegar a um acorde principal, preparando o ouvido para a resolução.

Inversões de acordes: tocar o mesmo acorde com uma nota diferente no baixo para criar movimento ou suavizar a progressão.

Acordes com sétima: acrescentar tensões que dão mais riqueza à harmonia sem alterar a função do acorde.

O objetivo aqui não é complicar a música, mas incrementar a base funcional que você já construiu, adicionando nuances que aproximam sua versão da original e dão mais expressão e personalidade ao acompanhamento.

Dica: nessa fase, o treino auditivo é fundamental. Teste cada acorde junto com a música e perceba se ele mantém a sensação harmônica correta. A rearmonização é tanto uma questão de ouvido quanto de criatividade, então aproveite para experimentar novas ideias sem perder a lógica das funções harmônicas.

Com isso, você passa de uma versão simples e funcional para uma versão mais completa, próxima da original e flexível, pronta para acompanhamento, arranjos ou interpretações pessoais.

Conclusão

Tirar músicas de ouvido sem depender de cifras ou tablaturas é uma habilidade que pode ser desenvolvida com prática e método. Começar pela versão simplificada, usando o conceito de harmonia funcional, permite que você compreenda a música de forma mais profunda, entendendo a lógica por trás das sensações de repouso, preparação e tensão.

Ao identificar o tom, mapear a sequência de funções harmônicas e escolher os acordes do campo harmônico, você cria uma base sólida e funcional que já pode ser tocada com confiança. A partir dessa base, é possível avançar para a rearmonização, incorporando acordes de empréstimo, inversões, tensões e acordes de preparação, aproximando sua versão da música original ou criando interpretações pessoais e únicas.

O mais importante é lembrar que esse processo exige treino auditivo e paciência, mas cada música que você conseguir tirar de ouvido vai fortalecer seu ouvido musical, sua percepção harmônica e sua criatividade como músico. Com o tempo, esse método se tornará natural, permitindo que você toque, arranje e transforme qualquer música sem depender de partituras ou cifras.

Em resumo: comece simples, compreenda as funções harmônicas e depois explore nuances. Assim, você terá não apenas músicas tocáveis, mas uma verdadeira compreensão da linguagem musical, capaz de libertar seu potencial criativo.


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